Acolhimento envolve abraçar, acalmar, rir, tocar, dar espaço e suprir. Acolher é estar com o olhar atento, com o corpo e a alma abertos para, com sensibilidade, doar um pouco de si.
Nosso processo tem início no momento da chegada da criança ao espaço escolar, por meio da adaptação. É nessa hora que começamos a vivenciar, junto às famílias, a experiência da separação. Muitas vezes, esse processo é desafiador, e todos os envolvidos necessitam de acolhimento. Essa vivência dá origem à relação entre a família e a escola e, a partir daí, juntos, direcionamos nossa atenção para o que está no centro: a criança.
Essa etapa exige presença. Por isso, nos preocupamos em nos aproximar aos poucos, olhar nos olhos, tocar e observar a resposta da criança, que é capaz de nos contar, por meio de suas expressões e reações, como está recebendo esse toque. Esse percurso nos leva até a porta de acesso, a entrada para o universo do bebê e da criança, que passa também pelo colo.
Muitos teóricos ressaltam a importância dos momentos de cuidado. Winnicott concordava que, nesses momentos, a capacidade de sustentar, proteger e dar apoio a um bebê, tanto fisicamente quanto emocionalmente, deveria ser exercida, salientando que a forma como se segura um bebê tem relação com o sentimento de segurança e continuidade do ser. Por isso, o cuidador precisa expressar respeito e apreço.
Emmi Pikler também acreditava que essa relação entre o adulto e a criança era fundamental para o desenvolvimento e destacava que a relação afetiva era importante na construção de segurança e confiança.
Em nossa proposta, pensamos no colo como um lugar de calor e afeto, onde se pode encontrar a sensação de segurança. Compreendemos, no entanto, que esse mesmo colo possa se revelar um lugar frio, caso quem o ofereça transmita distanciamento em vez de acolhimento. Por isso, tratamos esse assunto com bastante seriedade. Nosso objetivo maior é que as crianças encontrem liberdade, autonomia e pertencimento.
O colo estreita os vínculos, e o contato da pele possibilita a regulação da temperatura do corpo. Quando, em nosso cotidiano, vivenciamos a ação de acolher, de oferecer colo, percebemos como essa proximidade também tem o potencial de estabilizar a respiração e as batidas do coração, ajudando a regular as emoções.
Existe tanta beleza nessa troca! Nesse encontro de humano para humano, criamos um espaço de segurança, que permite ao bebê e à criança descobrirem sua vez e sua voz. O colo e o acolhimento são um convite para que se sintam livres para ser quem são em sua totalidade.
O acolhimento vai muito além do colo, e as crianças precisam viver, testar, manipular e muito mais. Como declarou Loris Malaguzzi, a criança tem cem modos de ver e de expressar, e, como representantes desse mundo e responsáveis por acompanhar sua jornada de conhecimento e descobertas, precisamos estar preparados para não as colocarmos em caixas, pois cada ser é único e tem o direito de escolher como deseja ser acalentado e cuidado. São tantos olhares, e, nessa relação, precisamos de escuta e presença para fazer a leitura adequada sobre que tipo de acolhimento cada situação exige.
Receber os bebês e as crianças é um processo que transcende a inter-relação e envolve a elaboração diária de espaços ricos e planejados. Quando pensamos nesse espaço, carregamos conosco o olhar da criança, que transborda curiosidade e encantamento. Sabemos que, para o ambiente ser estimulante, propondo autonomia e sentimento de pertencimento, é fundamental que haja um interesse genuíno pela criança e pelo seu processo de aprendizagem e desenvolvimento, valorizando seus interesses.
Por isso, nos perguntamos: que espaço essa criança deseja habitar? Considerando essa perspectiva, cada detalhe é importante! Desde o brinquedo que compõe um cantinho de investigação até a tenda que protege do sol; desde os livros até os brinquedos não estruturados, todos os elementos se somam na oferta de possibilidades para que essa criança explore, experimente e busque respostas às suas curiosidades.
E olha essa riqueza… Trabalhar com a infância dá a oportunidade de redescobrir o mundo todos os dias: a cada brincadeira, a cada novo encontro, no som de uma risada, no choro, na descoberta dos movimentos e das palavras. O que torna o nosso espaço realmente encantador e acolhedor é o fato de olharmos para as crianças e percorrermos, com elas, essa jornada rumo à construção de quem seremos todos.
fonte: Edilaine Carvalho, Coordenadora Pedagógica – Semeador Berçário